simplesmente.

Quinta-feira, Novembro 24th, 2011

no fim da aula de interpretação tivemos o tempo de uma música para ficarmos de olhos fechados, deitados do chão, apenas respirando. voei, os três ou quatro minutos se estenderam indefinidamente. fiquei pensando sobre o amor, a espera e minhas expectativas. tive vontade de dizer chega e viver essa adolescência explosiva dos hormônios. devia ser por causa dos pés. o meu pé esquerdo depositado na canela de rômulo produzia uma sensação de gostosa intimidade, diferente do pé direito que por alguns segundos relava no dedão do rene e claramente produzia desconforto. e não porque não fosse bom se tocar, mas por não se saber o que significava aquele toque, que mesmo tendo uma area milimétrica era capaz de produzir questionamentos e estatutos que modificam relações.
relação…relação que com rômulo é de troca e carinho. fiquei pensando sobre o amor, a espera e minhas expectativas.
a música acabou, abrimos os olhos e fomos trocar de roupa. nos 25 minutos de caminhada até o restaurante vegetariano que almoço todas as quartas-feiras e todos os dias que não cozinho, decidi que não poderia me entregar a uma espera.
o dia foi longo e repleto de eventos que me fizeram questionar meus posicionamentos diante da vida. o que eu quero?
tenho pensado sobre o que eu quero de forma diferente desde aquele dia em que sentado ao meu lado você me perguntou o que eu queria fazer da vida. senti que naquele momento eu realmente tinha recebido a graça de falar a verdade, sem precisar articular caminhos para se chegar honestamente ao meu desejo. porque sim, nos corrompemos e eu como idealista rechaço a desonestidade. o que é bem complicado, porque para chegarmos aos lugares temos que percorrer caminhos, adentrar em experiências e isso está sempre no agora. e agora eu estou mais preocupada em decorar o capítulo 23 do capital pra passar em economia politica 1 ou melhor, em aproveitar a companhia da carolla e do leo(que acaba de me presentear com ‘uma temporada no inferno e iliminações’ do rimbaud por acreditar que sou sósia dele) tomando vinho, comendo macarrão e ouvindo benny goodman que nos lembra woody allen e baudelaire e discutindo enfim sobre toda a conduta humana e a coragem de não disfarçar seus desejos por uma postura retraída civilizada, mais conhecida como vergonha, do que percorrer os caminhos que me levarão a lugares….não era nem disso que eu falava.
mas nesse agora não é com prova, nem vinho, nem com rimbaud que me importo. na verdade isto está profundamente presente e é por isso que não me importo. o que me emociona agora é você sentado ao meu lado perguntando o que eu quero da vida como nunca antes alguém, nem eu mesma, tinha me perguntado. por um momento pude responder a verdade, a única verdade, que o que eu queria era prova, vinho, rimbaud e toda sorte de livros que eu pudesse ler. era nunca precisar estabelecer caminhos pra chegar, era a não necessidade de inventar tempos para cumprir meus estudos ou 8 horas de trabalho diário, nem mesmo até a mais ainda preocupante e anterior tarefa de realizar entrevistas ou suportar a conquista de diplomas e títulos para serem botados no currículo para que então eu inventasse tempos para cumprir horas em empregos que me dignificassem, como ser acadêmica ou artista de renome.
você, sentado ao meu lado, perguntou o que eu queria da vida.
eu, que só nesse agora que se escorre pelo relógio digital no canto da tela faço das tripas corações para exaltar a importância de poder ter sido sincera e revelar que quero, sei lá, um jardim, internet, um filho, cheiro de bolo assando e livros. quero tempo pra cortázar, rimbaud, goya, jodorowsky.
eu já tenho tudo isso. e no fim desse dia de muitos pensamentos mal criados sei que não me entrego a uma espera, entrego-me ao amor. sabendo que os filhos mal criados contém em si algum tipo de graça transcendente.

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